O nosso reizinho

Escrito por Saulo às 00h38
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Artur, um ano - uma reflexão sobre o tempo

E eis que Artur completou um ano. Um ano tornando nossa vida mais alegre, mais interessante, mais intensa e melhor. E bem mais contemplativa também. Um dia antes do seu aniversário, eu, de férias, fui ao shopping comprar o presente. Aproveitei, dei uma passadinha no cinema e vi O curioso caso de Benjamin Button. Pronto. Um belo filme e o aniversário do meu filho. Foi o suficiente para eu passar alguns dias fazendo uma reflexão sobre o tempo. Tudo bem que esse dolce far niente me ajuda a pensar coisas que normalmente não penso. Aí está mais uma vantagem das férias: ela nos ajuda a observar o universo ao nosso redor e, consequentemente, abre as janelas de nossa percepção. Filosofia, amigos, filosofia. Para quem não sabe, o filme é baseado num conto de F. Scott Fitzgerald. Trata de um homem que nasce com 80 anos e, na contramão de tudo e todos, vai rejuvenescendo até virar um bebê. No decorrer de sua vida ao contrário, ele passa pelas mesmas experiências que qualquer um de nós: conflitos, preconceitos, doenças, amor, paixão etc. O melhor, no entanto, é depois que o filme acaba. Invariavelmente, você sai do cinema pensando sobre a finitude da vida e, independentemente de padrões sociais, valores pré-estabelecidos e, sobretudo, independentemente do passar do tempo, como é importante aproveitar os bons momentos. Foi com o espírito assim, mergulhado no tal do carpe diem, que celebrei o primeiro aniversário do meu filho. Durante os últimos dias, o observei mais que o normal. Sorrisos, gargalhadas, gestos, choro... Descobri que ele deixou de engatinhar com a perninha direita meio bamba, percebi que está quase andando, vi que adora apontar para as lâmpadas e dizer com sua vozinha “luz, luz”, notei que ele dá altas gargalhadas quando eu simulo que algum objeto caiu de minhas mãos e ao mesmo tempo grito “eita!”, constatei que ele já tem um vocabulário formado por cinco palavras: papá, mamã (nessa ordem, juro), ogí (significa Osiris, sua babá), car (é carro mesmo) e, como eu já disse, luz. E por aí vai...Ele também á sabe o que é bola, embora ainda não pronuncie a palavra. Também já sabe bater palmas quando uma música o agrada e se despedir de alguém dando tchau. Ao contrário de Benjamim Button, Artur segue o curso convencional da vida. Eu lembro como se fosse hoje eu e Patrícia chegando em casa com aquele bebezinho no colo. Nossa maior preocupação naquele momento era saber se ele iria “pegar” o peito, ou seja, se iria ser um bom mamador. E ele não só foi, como vem sendo um grande mamador. Depois, vieram as noites em claro, quando eu passava as madrugadas cantando músicas de Raul Seixas (Peixuxa), Luiz Gonzaga (Assum Preto) e Nenhum de Nós (O inferno e o céu) para ele dormir. Lembro de cada uma das vezes em que ele, enquanto eu trocava sua fralda, me batizou com seu xixi e olhava rindo enquanto eu reclamava. Ainda está nítida na minha memória quando ele começou a balbuciar, ensaiando o que hoje é o seu encantador “papá” ou quando aprendeu a ficar sentadinho, sempre com as perninhas fazendo um X (não me perguntem o porquê). Parece que foi ontem que levamos Artur para a Ilha do Retiro, templo do futebol mundial. Tudo bem que ele dormiu quase o jogo todo, mas foi quando ele estava acordado que o Sport, campeão brasileiro de 1987 e campeão do Brasil em 2008, sacramentou sua vitória contra o Internacional de Porto Alegre. E vieram, então, as saídas comigo e Patrícia. Praia, barzinho, shopping. Confesso que ainda fico orgulhoso quando, empurrando o seu carrinho, vejo o rosto sorridente e admirado de quem o olha. Foi mais ou menos nessa época que Artur começou a comer outras coisas que não apenas o leite materno. Até agora ele se revelou um menino muito bom de garfo – ou melhor, bom de aviãozinho porque temos que fazer toda aquela sonoplastia que imita o motor de uma aeronave. Ele come de tudo, mas o seu prato preferido, já sabemos: nhoque. A cada bolinha daquela que degusta, Artur, ato contínuo, começa a emitir uns sons guturais numa demonstração clara que está plenamente satisfeito com o cardápio. Sobre a bebida, também não tem fricote. O garoto adora tudo, mas tem um fraco especial por suco de goiaba. Nesse particular, temos que ter um cuidado especial. Não podemos, em hipótese alguma, deixar que ele veja uma garrafa de Coca-Cola. Se tal acontecer, ele surta. Como um náufrago implorando por um copo de água, Artur fica querendo de todo jeito agarrar aquela garrafa preta com rótulo vermelho. Desde que vi a cena pela primeira vez comecei a acreditar naquele papo de propaganda subliminar. À medida em que ele foi crescendo, nossas preocupações foram mudando. Nesse momento, o que mais me angustia são as quedas. Outro dia o coitado levou um baque (não quero falar sobre culpas para evitar briga) da cama. Bateu a testinha no chão e imediatamente ganhou seu primeiro galinho. Passei uns dois dias traumatizado com a queda do meu filho, sem querer deixá-lo dormir e fazendo uns testes neurológicos que eu mesmo inventei. Os pais mais experientes me alertaram que aquela tinha sido a primeira de várias outras quedas que viriam – e estão vindo. Mas ainda assim, fico querendo acompanhá-lo com as mãos estendidas sempre que ele ensaia uma caminhada. Por causa dessa precaução que venho tomando sou obrigado a ficar com a coluna envergada e que me fez parar na emergência ortopédica um dia desses. Quando eu reclamava de dor nas costas, Patrícia achava que era onda minha, uma mentirinha pra não ter que niná-lo durante os choros das madrugadas. Aí ela própria teve um torcicolo violento e só então passou a dar mais crédito às minhas dores musculares na região da omoplata. Quando Artur completou uns 11 meses, eu e Patríca, incentivados por todo mundo, resolvemos passar dois dias numa espécie de “férias”. O Objetivo era descansar e ficar namorando um pouco enquanto nosso filhote se acostumava mais intensamente com outras companhias, como a dos avós, de Osiris e de Fau, esta última a pessoa mais maternal que já conheci – depois da minha mãe e de Nara, mãe de Patrícia, claro. O problema é que eu e Patrícia, durante nossas férias, só falávamos de Artur, só pensávamos em Artur. Nos intervalos das nossas distrações, assistíamos vídeos de Artur no meu celular. Quando voltamos pra casa, depois desses dois dias sem ele, parecia que tínhamos estado nos últimos anos num país distante. Abraçamos ele, beijamos, brincamos. Artur até estranhou tanto carinho tanto agarrado, mas, enfim, foi a saudade meus amigos, a saudade. E finalmente chegamos no mês em que ele completou um aninho. Desde o início de janeiro, começamos a colocar em prática o que a gente tinha planejado sobre a festinha. O tema, escolhido por Patrícia, foi O Rei Artur. E a festa foi sensacional, inesquecível mesmo. Agora, estamos eu Patrícia novamente durante um final de semana sem ele. Nos disseram que isso era importante pra que ele não ficasse tão dependente do pai e da mãe. Trata-se de uma tentativa de fazê-lo dormir sem necessariamente sentir o cheirinho do leite da mãe. Ultimamente ele vinha dando trabalho para dormir, querendo dengo no meio da madrugada, o que nos deixava feitos zumbis ao raiar do dia. A cada hora que telefonamos todo mundo diz que está tudo bem. E a gente só fala sobre ele. Aliás, parece que o mundo inteiro resolveu ter um bebê e passear com ele. Para onde olhamos há sempre um menininho parecido com Artur e, quase sempre, fita-me nos olhos como quem diz “eu estou aqui com meu pai. E cadê seu filho?” Estou doido pra voltar pra casa e ficar com ele, jogar esse remorso pra escanteio e abraçá-lo enquanto faço besourinhos em sua barriga. Fau acaba de telefonar dizendo que ele começou a andar sozinho. Ficamos eu e Patrícia pensando nele, olhando fotos e vídeos no celular. A cada garotinho que avistamos, ficamos debatendo se ele é mais velho ou mais novo que Artur. Aí, eis que volta a minha mente essa questão do novo, do velho, do tempo, da vida, da finitude humana. E me lembro de Benjamim Button e sua vida na contramão de tudo e de todos. Mas, sinceramente, meus amigos, o que são os relógios e o passar do tempo quando você ama alguém? Independentemente de toda a padronização social e cronológica, continuamos amando porque, no final das contas, o coração desconhece a programação mecânica ou eletrônica daquelas caixas de metal que nos informam as horas.
Escrito por Saulo às 23h55
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