O nosso reizinho

Escrito por Saulo às 00h38
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Artur, um ano - uma reflexão sobre o tempo

E eis que Artur completou um ano. Um ano tornando nossa vida mais alegre, mais interessante, mais intensa e melhor. E bem mais contemplativa também. Um dia antes do seu aniversário, eu, de férias, fui ao shopping comprar o presente. Aproveitei, dei uma passadinha no cinema e vi O curioso caso de Benjamin Button. Pronto. Um belo filme e o aniversário do meu filho. Foi o suficiente para eu passar alguns dias fazendo uma reflexão sobre o tempo. Tudo bem que esse dolce far niente me ajuda a pensar coisas que normalmente não penso. Aí está mais uma vantagem das férias: ela nos ajuda a observar o universo ao nosso redor e, consequentemente, abre as janelas de nossa percepção. Filosofia, amigos, filosofia. Para quem não sabe, o filme é baseado num conto de F. Scott Fitzgerald. Trata de um homem que nasce com 80 anos e, na contramão de tudo e todos, vai rejuvenescendo até virar um bebê. No decorrer de sua vida ao contrário, ele passa pelas mesmas experiências que qualquer um de nós: conflitos, preconceitos, doenças, amor, paixão etc. O melhor, no entanto, é depois que o filme acaba. Invariavelmente, você sai do cinema pensando sobre a finitude da vida e, independentemente de padrões sociais, valores pré-estabelecidos e, sobretudo, independentemente do passar do tempo, como é importante aproveitar os bons momentos. Foi com o espírito assim, mergulhado no tal do carpe diem, que celebrei o primeiro aniversário do meu filho. Durante os últimos dias, o observei mais que o normal. Sorrisos, gargalhadas, gestos, choro... Descobri que ele deixou de engatinhar com a perninha direita meio bamba, percebi que está quase andando, vi que adora apontar para as lâmpadas e dizer com sua vozinha “luz, luz”, notei que ele dá altas gargalhadas quando eu simulo que algum objeto caiu de minhas mãos e ao mesmo tempo grito “eita!”, constatei que ele já tem um vocabulário formado por cinco palavras: papá, mamã (nessa ordem, juro), ogí (significa Osiris, sua babá), car (é carro mesmo) e, como eu já disse, luz. E por aí vai...Ele também á sabe o que é bola, embora ainda não pronuncie a palavra. Também já sabe bater palmas quando uma música o agrada e se despedir de alguém dando tchau. Ao contrário de Benjamim Button, Artur segue o curso convencional da vida. Eu lembro como se fosse hoje eu e Patrícia chegando em casa com aquele bebezinho no colo. Nossa maior preocupação naquele momento era saber se ele iria “pegar” o peito, ou seja, se iria ser um bom mamador. E ele não só foi, como vem sendo um grande mamador. Depois, vieram as noites em claro, quando eu passava as madrugadas cantando músicas de Raul Seixas (Peixuxa), Luiz Gonzaga (Assum Preto) e Nenhum de Nós (O inferno e o céu) para ele dormir. Lembro de cada uma das vezes em que ele, enquanto eu trocava sua fralda, me batizou com seu xixi e olhava rindo enquanto eu reclamava. Ainda está nítida na minha memória quando ele começou a balbuciar, ensaiando o que hoje é o seu encantador “papá” ou quando aprendeu a ficar sentadinho, sempre com as perninhas fazendo um X (não me perguntem o porquê). Parece que foi ontem que levamos Artur para a Ilha do Retiro, templo do futebol mundial. Tudo bem que ele dormiu quase o jogo todo, mas foi quando ele estava acordado que o Sport, campeão brasileiro de 1987 e campeão do Brasil em 2008, sacramentou sua vitória contra o Internacional de Porto Alegre. E vieram, então, as saídas comigo e Patrícia. Praia, barzinho, shopping. Confesso que ainda fico orgulhoso quando, empurrando o seu carrinho, vejo o rosto sorridente e admirado de quem o olha. Foi mais ou menos nessa época que Artur começou a comer outras coisas que não apenas o leite materno. Até agora ele se revelou um menino muito bom de garfo – ou melhor, bom de aviãozinho porque temos que fazer toda aquela sonoplastia que imita o motor de uma aeronave. Ele come de tudo, mas o seu prato preferido, já sabemos: nhoque. A cada bolinha daquela que degusta, Artur, ato contínuo, começa a emitir uns sons guturais numa demonstração clara que está plenamente satisfeito com o cardápio. Sobre a bebida, também não tem fricote. O garoto adora tudo, mas tem um fraco especial por suco de goiaba. Nesse particular, temos que ter um cuidado especial. Não podemos, em hipótese alguma, deixar que ele veja uma garrafa de Coca-Cola. Se tal acontecer, ele surta. Como um náufrago implorando por um copo de água, Artur fica querendo de todo jeito agarrar aquela garrafa preta com rótulo vermelho. Desde que vi a cena pela primeira vez comecei a acreditar naquele papo de propaganda subliminar. À medida em que ele foi crescendo, nossas preocupações foram mudando. Nesse momento, o que mais me angustia são as quedas. Outro dia o coitado levou um baque (não quero falar sobre culpas para evitar briga) da cama. Bateu a testinha no chão e imediatamente ganhou seu primeiro galinho. Passei uns dois dias traumatizado com a queda do meu filho, sem querer deixá-lo dormir e fazendo uns testes neurológicos que eu mesmo inventei. Os pais mais experientes me alertaram que aquela tinha sido a primeira de várias outras quedas que viriam – e estão vindo. Mas ainda assim, fico querendo acompanhá-lo com as mãos estendidas sempre que ele ensaia uma caminhada. Por causa dessa precaução que venho tomando sou obrigado a ficar com a coluna envergada e que me fez parar na emergência ortopédica um dia desses. Quando eu reclamava de dor nas costas, Patrícia achava que era onda minha, uma mentirinha pra não ter que niná-lo durante os choros das madrugadas. Aí ela própria teve um torcicolo violento e só então passou a dar mais crédito às minhas dores musculares na região da omoplata. Quando Artur completou uns 11 meses, eu e Patríca, incentivados por todo mundo, resolvemos passar dois dias numa espécie de “férias”. O Objetivo era descansar e ficar namorando um pouco enquanto nosso filhote se acostumava mais intensamente com outras companhias, como a dos avós, de Osiris e de Fau, esta última a pessoa mais maternal que já conheci – depois da minha mãe e de Nara, mãe de Patrícia, claro. O problema é que eu e Patrícia, durante nossas férias, só falávamos de Artur, só pensávamos em Artur. Nos intervalos das nossas distrações, assistíamos vídeos de Artur no meu celular. Quando voltamos pra casa, depois desses dois dias sem ele, parecia que tínhamos estado nos últimos anos num país distante. Abraçamos ele, beijamos, brincamos. Artur até estranhou tanto carinho tanto agarrado, mas, enfim, foi a saudade meus amigos, a saudade. E finalmente chegamos no mês em que ele completou um aninho. Desde o início de janeiro, começamos a colocar em prática o que a gente tinha planejado sobre a festinha. O tema, escolhido por Patrícia, foi O Rei Artur. E a festa foi sensacional, inesquecível mesmo. Agora, estamos eu Patrícia novamente durante um final de semana sem ele. Nos disseram que isso era importante pra que ele não ficasse tão dependente do pai e da mãe. Trata-se de uma tentativa de fazê-lo dormir sem necessariamente sentir o cheirinho do leite da mãe. Ultimamente ele vinha dando trabalho para dormir, querendo dengo no meio da madrugada, o que nos deixava feitos zumbis ao raiar do dia. A cada hora que telefonamos todo mundo diz que está tudo bem. E a gente só fala sobre ele. Aliás, parece que o mundo inteiro resolveu ter um bebê e passear com ele. Para onde olhamos há sempre um menininho parecido com Artur e, quase sempre, fita-me nos olhos como quem diz “eu estou aqui com meu pai. E cadê seu filho?” Estou doido pra voltar pra casa e ficar com ele, jogar esse remorso pra escanteio e abraçá-lo enquanto faço besourinhos em sua barriga. Fau acaba de telefonar dizendo que ele começou a andar sozinho. Ficamos eu e Patrícia pensando nele, olhando fotos e vídeos no celular. A cada garotinho que avistamos, ficamos debatendo se ele é mais velho ou mais novo que Artur. Aí, eis que volta a minha mente essa questão do novo, do velho, do tempo, da vida, da finitude humana. E me lembro de Benjamim Button e sua vida na contramão de tudo e de todos. Mas, sinceramente, meus amigos, o que são os relógios e o passar do tempo quando você ama alguém? Independentemente de toda a padronização social e cronológica, continuamos amando porque, no final das contas, o coração desconhece a programação mecânica ou eletrônica daquelas caixas de metal que nos informam as horas.
Escrito por Saulo às 23h55
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Eu, papai
Dizem que todo mundo deve aprender algo novo a cada dia. Ao forçar o cérebro a entender uma nova atividade, a pessoa exercita a própria inteligência. E assim afasta o risco de doenças degenerativas. Se tudo isso for verdade, estou no caminho certo.
Desde a gravidez de Patrícia e também nestes sete meses de vida de Artur, aprendi tanta coisa que me sinto à vontade até para ensinar algumas delas. Neste domingo, Dia dos Pais, meu primeiro Dia dos Pais como pai e não apenas como filho, resolvi fazer um pequeno balanço das tantas coisas boas que aprendi e venho aprendendo graças ao meu filho.
Quer um coisa que eu nunca entendia e agora entendo? É o tal do banho-maria. Às vezes eu ouvia falar na TV ou então escutava minha mãe conversando com um amiga e nunca me interessei em saber o que era esse negócio. Agora eu sei.
Aprendi o que era banho-maria desde o dia em que acabou a licença-maternidade de Patrícia e tive que, vez por outra, alimentar Artur com o leite que ela deixava na geladeira. Como não podemos dar o leite nem gelado nem quente (esqueça o microondas), é preciso colocar a mamadeira dentro de uma panela com água que, aquecida em fogo brando, regula a temperatura do leite. De vez em quando, é preciso pegar a mamadeira e colocar uma gotinha de leite nas costas da mão. Quando o alimento estiver numa temperatura natural, é hora de servir.
O menino bebe tudo e ainda chora quando acaba. Mesmo de barriga cheia, ele chora. Aí você tem que fazê-lo arrotar e depois mudar a atenção dele. Nesse quesito, fiquei craque. Cantarolar músicas é comigo mesmo.
De tanto repetir, até inventei uma versão de Atirei o Pau no Gato em ritmo de blues. Artur adora. É só eu cantar os versos de maneira mais arrastada, com a voz pastosa, intercalando uns yeahs com um ou outro gemido melancólico que ele amolece o pescoço sobre meu ombro direito. Quando começo a interagir com minha platéia imaginária, que repete em uníssono os trechos que canto tal um Robert Johnson num pequeno palco da Lousiana, Artur dorme tranqüilo. E é no momento que ele dorme que coloco em prática outra coisa que aprendi.
Com Artur nos braços, cantando baixinho outra canção e fazendo leves movimentos ritmados, aprendi a andar calmamente pela casa, olhando os detalhes de cada objeto. É uma terapia, amigos. Uma terapia eficaz que, se já não foi catalogada pela medicina, deveria.
Sem pressa, observo as reentrâncias do piso de cerâmica, o tecido das almofadas, o tipo de madeira da mesinha da TV, os desenhos infantis que ilustram a banheira que fica na sala, os pequenos pontos de ferrugem na haste de metal do revisteiro, os ímãs de geladeira. Não paro por aí. Da varanda (distante da parede, diga-se), vejo o Recife à noite. Reparo nas luzes que brilham em amarelo, as luzes brancas e distantes que piscam rapidamente. Olho para as luzes vermelhas sobre os prédios, admiro o contorno dos edifícios... Quando Artur já está devidamente relaxado para ir ao berço, minha mente parece ter passado por uma daquelas antigas meditações orientais. Também tenho sono e logo vou dormir.
Aliás, eis aqui outra novidade pós-paternidade: sono. Eu não durmo tanto quanto meu corpo pede, mas quando durmo, é um sono natural e revigorante.
Meu aprendizado contínuo começou antes de Artur nascer. A gravidez de Patrícia teve um efeito pedagógico para mim. Naqueles noves meses, aprendi a gostar de acordar cedo para acompanhá-la nos exames, aprendi a identificar imagens de ultrassonografia e a controlar minha ansiedade toda vez que o médico, ao passar aquele scanner na barriga de Patrícia, ficava calado, com o cenho franzido e concentrado na tela do computador.
À medida que a gravidez avançava, eu ia mudando meus hábitos. Entre outras conquistas, diminuí o estresse no trabalho, parei de fumar, adotei uma alimentação mais saudável, emagreci e comecei a fazer exercícios (neste último quesito dei uma farrapada nos últimos meses, mas pretendo voltar a caminhar logo). Também aprendi a dirigir devagar. Sim, fiquei mais medroso. Mas vocês haverão de reconhecer que o saldo é positivo.
Em 14 de janeiro deste ano, virei papai. Artur nasceu forte e saudável. E eu renasci naquela noite de segunda-feira no Hospital Esperança. Ao lado de Patrícia, vi e filmei nosso filho enquanto uma felicidade indescritível me tomava por completo. Daquele dia até hoje meus cabelos ficaram mais brancos, mas, paradoxalmente, eu fiquei mais jovem.
Artur veio para casa e meu aprendizado ficou mais intenso. Paciente, Patrícia sempre me ajudou a ajudá-la. E assim, me ensinou a dar banho, a ninar, a limpar cocô, a trocar fralda. Vocês podem não acreditar, mas eu adoro trocar a fralda. Não faço isso com tanta freqüência, mas quando faço, ah, quando faço, duvido que alguém faça melhor. Confesso que no começo eu errava muito. Às vezes colocava a fralda invertida (a frente para trás e vice-versa) ou a inutilizava ao manusear a fita auto-colante com dedos sujos de pomada anti-assaduras. Mas depois que aprendi que os desenhos coloridos ficam pra frente e que é preciso limpar os dedos antes de fixar as abas, virei especialista. Duvido que o xixi vaze de uma fralda colocada por mim. Sei dizer com certeza quais as melhores e as piores fraldas do mercado. Conheço as numerações, as que usam floc gel, as noturnas e as básicas. Alguma dúvida sobre fraldas? Podem me perguntar.
E meu intensivo continua a cada dia. Também aprendi o que é um moisés, como montar um bebê-conforto no banco de trás do carro, como carregar Artur só com um braço, como fazê-lo sorrir, como fazê-lo gargalhar, como dar remédios e como aproveitar suas horas de sono para resolver as minhas coisas.
Enfim, aprendi a fazer por Artur tudo aquilo que doutor André fez (e faz) por mim. Aprendi a ser pai.
Escrito por Saulo às 02h48
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Em casa, já recuperado (olha o braço do cara!)
Escrito por Saulo às 00h57
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Na terça-feira, ele já estava melhor
Escrito por Saulo às 00h55
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Artur usa a máscara de nebulização no domingo
Escrito por Saulo às 00h53
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Sobre bronquiolite e missa
Faz alguns anos que não vou à missa. Mas amanhã eu vou. Acordarei logo cedo neste domingo, colocarei uma calça, uma camiseta, minhas sandálias e vou a pé à igreja nova de Boa Viagem, que fica aqui perto de minha casa. Se eu tiver oportunidade, conversarei com o padre e pedirei para me confessar. Por que este surto religioso? Promessa, meus caros. Promessa.
Tive uma das maiores angústias de minha vida na semana passada. Agora está tudo bem e eu preciso cumprir o que prometi para não perder meu crédito divino. Ao começo...
Domingo passado. Por volta de 11 horas, após mais uma noite mal dormida com Artur, Patrícia disse: - vamos ao pediatra agora. Ele não está respirando direito. Essa gripe está durando muito tempo. De fato, há uns vinte dias que o menino vinha fungando e tossindo. O sono estava difícil e ele se irritava facilmente.
Eu disse: - vamos.
Saí de casa com Patrícia e Artur para uma emergência pediátrica que fica aqui pertinho. Dirigindo o carro enquanto olhava pelo retrovisor para mãe e filho, pensei: isso deve ser uma besteira. Vão pingar um remedinho no nariz dele e logo voltamos para casa. Acho que dá para almoçar no Boteco e tomar uns chopes antes do jogo do Sport contra o Santos...É, acho que dá para ir.
Engano, meus amigos. Engano. Começava um dos dias mais complicados, estranhos e tensos desses meus 34 anos. Eu parecia K, o personagem de Kafka que se embrenha numa angustiante teia de burocracia e incompreensões.
Após uns vinte minutos de espera, a médica da emergência examinou Artur, que estava estranhamente quieto. Olhou ouvidos, nariz, auscultou os pulmões. Depois, tomou a mão do garoto e colocou em seu dedo anular esquerdo um aparelho que emite uma luz azul e verifica o nível de oxigênio no sangue do menino. Comecei a ficar com medo. - Ele está cansado, respirando com dificuldade e precisa fazer nebulização, disse a doutora.
Eu ainda estava calmo e tranqüilizei Patrícia dizendo que aquilo era um procedimento comum em bebês, sobretudo com este clima maluco que chove e faz sol, faz frio e faz calor...
Pela primeira vez em seus pouco mais de seis meses, Artur colocou aquela máscara de oxigênio transparente conectada a um pequeno recipiente com algumas gotas de um broncodilatador. Eu sempre via aquela cena na TV ou em jornais, mas nunca era meu filho. Agora era. Fiquei um pouco preocupado e comecei a rezar mentalmente.
Nos braços de Partríca na ante-sala do consultório médico, Artur, ainda chateado com aquele equipamento no rosto, deu as primeira respiradas. Dez segundos de oxigênio puro direto no sistema respiratório e ele, curiosamente, parou, olhou para mim e deu uma gargalhada fora de hora. Achei graça também, mas depois fiquei ainda mais preocupado. Percebi com Patrícia que aquilo era um efeito colateral. A gargalhada, embora engraçada, era artificial. Pedi a São José, meu santo protetor, que Artur ficasse bom logo.
Cinco minutos de nebulização e ele voltou à médica, que o examinou de novo e constatou que a melhora havia sido muito pouca. Ela então falou numa tal de bronquiolite, inflamação nos bronquíolos geralmente causada por vírus. Rezei um Pai-Nosso mentalmente. A médica explicou então que Artur estava com o nível de oxigênio abaixo do normal e disse que o melhor naquele momento seria interná-lo. Sempre simulando ser forte e razoável, senti os primeiros tremores nas pernas. Rezei uma Ave Maria.
Eis que começamos a nos deparar com as dificuldades operacionais comuns ao consumidores brasileiros. Nenhum grande hospital privado tinha vaga na ala de internação pediátrica naquele domingo à tarde. Achei estranho porque não havia acontecido nenhum desastre natural nos últimos dias. A moça da recepção, muito simpática, telefonou para o Esperança, Memorial São José e Português. Nada de vaga. O Santa Joana não atendia o telefonema. Rezei outro Pai Nosso e um Santo Anjo enquanto tentava tranqüilizar Patrícia e acariciava o rosto de Artur, que, involuntariamente, golpeava meu coração ao arquear suas sobrancelhas, o que lhe conferia uma inquietante expressão de tristeza.
Foi quando a médica o examinou pela terceira vez e disse que ele estava melhorzinho, mas, contraditoriamente, falou até em UTI. Gelei. Antes de pedir uma explicação para aquilo tudo, me encostei no balcão da recepção, respirei e fiz a promessa de ir à missa se tudo saísse bem. Enxuguei o suor da minha testa, bebi um copo de água e tentei me acalmar.
Àquela altura, umas 14h, não tinha mais ninguém na clínica. A médica, muito solícita, se compadeceu do nosso drama e começou a disparar uns telefonemas para garantir a internação do menino. Nada. Depois de amaldiçoar o país, o presidente da República, o ministro da Saúde, os donos de hospitais particulares, o SUS, o superávit primário, a carga tributária e a classe médica como um todo tive uma idéia. Telefonei para Mauro, um amigo que conhece o pessoal do Santa Joana. Finalmente conseguimos. Fomos ao hospital, mas, antes da internação, purguei mais uma: o plano de saúde tinha carência para internamento.
Já passava das 16h, Artur estava do mesmo jeito, Patrícia nervosa e com fome (nem eu nem ela havíamos comido naquele domingo) e eu à beira do desespero tal Michael Douglas em Um dia fúria. Para melhorar a situação, pelo menos as duas avós, Osana e Nara, e a tia Carol já estavam com a gente no Santa Joana.
Artur já havia sido examinado pela médica da emergência. A doutora o havia medicado, confirmado o diagnóstico da tal da bronquiolite e dito que o problema não era assim tão sério. O nível de oxigênio estava normalizado, mas ele tinha muito catarro nas vias respiratórias superiores. A médica nos deixou mais calmos.
Mas aí, fui chamado à tesouraria do hospital, que, após telefonar para a Camed (plano de saúde meu e de Artur), me informou da carência. Senti falta de um ansiolítico, de um tranqüilizante, de um suco de maracujá ou de qualquer coisa que pudesse normalizar meu estado de nervos.
Em frente a Rossana, a moça do hospital que me atendia com rosto de piedade, simpatia e solicitude, telefonei para Remígio (que nome!), o cara que, seis meses atrás, me vendeu o plano de Artur.
Nervoso, expliquei toda a epopéia daquela tarde. Ele bocejou e falou da porra da carência. Reclamei dizendo que ele não havia me falado disse quando assinei o contrato. E ele: - Claro que expliquei. Eu tenho 26 anos nesse ramo e nunca deixaria de falar isso porque... Interrompi: - Meu caro, eu quero que você me ajude porque estou com meu filho precisando ser internado aqui no hospital. Não me interessa quanto anos você tem nesse ramo. E ele: - Não posso te ajudar porque o contrato... Interrompi de novo e o mandei para merda. Depois, desliguei o telefone.
Rossana olhava para mim com cara de piedade e um certo temor. Pedi desculpas a ela. Ela então falou que plano liberaria a internação de 12 horas num tal de day clinic, espécie de enfermaria afrescalhada. Quando ela falou day clinic, eu, agoniado e pouco familiarizado com o idioma inglês, entendi declive. Me veio à mente meu filho, balão de oxigênio enferrujado ao lado, deitado numa maca encostada numa rampa feito aquela da Restauração. Rezei outro Pai Nosso e disse que iríamos a um apartamento mesmo que fosse preciso pagar.
Rossana então me explicou o que era o day clinic. Reiterei que pagaria pelo apartamento. Voltei para a salinha da emergência com a informação da Camed sobre a carência. Osana, minha mãe, Nara, Carol, Patrícia, Artur (novamente com o rosto numa máscara de nebulização), duas médicas me aguardavam. Antes que a indignação tomasse conta do ambiente e de a culpa pelo problema desabar sobre meus ombros, lembrei-me que Artur tinha outro plano, descontado no contracheque de Patrícia. Voltei correndo para o birô de Rossana que, sorrindo empolgada com a boa nova, providenciou a internação no apartamento. Ainda passamos uma hora de meia no tal do day clinic enquanto a Notre Dame (plano que nos salvou) autorizava tudo e o Santa Joana preparava o quarto. O day clinic até que não é tão mal. O problema era o fedor de cocô que invadia nosso recinto vindo do quarto ao lado. Ainda reclamei, mas não adiantou.
Às 19 horas, Artur entrou no apartamento do setor pediátrico do Santa Joana onde passou quatro dias. Ficamos um pouco aliviados. Ali começava meu intensivo sobre problemas respiratórios que acometem crianças, broncodilatadores, taquicardia, aspirações, nebulizações e antibióticos.
Para mim e Patrícia (principalmente para ela) foram dias sem dormir. Artur estava sem respirar direito e, quando dormia, o nariz emitia um som angustiante. Logo, ele acordava chorando. Isso durou os primeiros dois dias. Era de dar pena, amigos. Mas nada comparado a um procedimento chamado aspiração. Eu explico.
Por causa da secreção, as enfermeiras introduziam uma sonda de uns 20 centímetros nas narinas de Artur. Primeiro em uma e depois na outra. A sonda é ligada a um aparelho que vai até a traquéia e suga o catarro como um minúsculo limpa-fossas. O menino não chorava. Urrava. Era preciso segurar os dois braços, as duas pernas e a cabecinha. No auge do desespero, ele abria os olhinhos molhados de lágrimas e me fitava como quem pede ajuda àquele que lhe domina. Quase choro, amigos. Foi pior que o teste do pezinho feito dias depois do nascimento.
O lado bom é que, após a aspiração, ele conseguia dormir melhorzinho. Mas aí, vinha a nebulização de duas em duas horas. De dia, de noite, de madrugada...E tome a fumacinha no rosto com soro fisiológico, Atrovent e Aerolin. Um dia após a internação, Artur já apresentou uma pequena melhora. Teve uma hora que eu pensei que ele já estava bom tamanha sua vontade de brincar, se mexer, falar, sorrir e ficar em pé. Tudo ao mesmo tempo. - Olha Patrícia, ele já ta bom. Vê como ta danado...
Patrícia, sempre mais atenta do que eu, viu que aquilo não era normal. E deduziu que era efeito colateral do medicamento inalado. Dito e feito. Descobri que broncodilatadores como Aerolin e Berotec aceleram o coração de quem os usa. Quando a médica, após medir os batimentos cardíacos, nos explicou isso, pensei: Puta merda, o que era um nariz com catarro ontem de manhã virou uma questão cardíaca hoje. Cocei a testa, respirei fundo, fechei rapidamente os olhos e rezei mentalmente uma Ave Maria. Artur foi melhorando, melhorando. Na terça-feira, eu, com a coluna torta por causa da poltrona onde estava dormido, fui dormir em casa. Antes, porém, providenciei um colchão para Nara, minha sogra que me rendeu para que eu pudesse dormir um pouco. Patrícia, coitada, não teve essa chance e seguiu sem desligar um minuto. Às vezes eu ficava com pena dela, mas não demonstrava. Minha experiência mostra que quando a minha piedade vêm à tona, Patrícia piora e fica chorosa.
E assim se passaram os quatro dias. Na quinta-feira, para nossa felicidade, Artur teve alta. Amanhã acabam as sessões de nebulização e, daqui a cinco dias, ele pára de tomar a amoxilina. Neste momento ele está dormindo em seu bercinho, com a boca fechada e sem nenhuma dificuldade respiratória. Patrícia também dorme tranqüila.
Acho que eu também vou deitar, afinal tenho que acordar cedo para cumprir minha promessa. À tarde, almoçaremos no Boteco e tomo meu chopinho feliz, com meu filhão são e salvo do meu lado. Se alguém fumar perto da mesa, parto para ignorância.
Escrito por Saulo às 00h29
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Escrito por Saulo às 17h06
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Outras cuecas no varal
Eram 4h30 da manhã de um sábado, um sábado desses comuns em que nada de diferente acontece. Foi quando percebi que eu não era mais o único homem da casa.
Acordei, fui à cozinha beber água. Pelo janelão da área de serviço, vi que o sol nascia. Enquanto bebia calmamente minha água nem muito gelada nem natural, fiquei contemplando o céu que começava a ficar claro. Não sei exatamente por que, mas subitamente, mudei o foco da minha visão. Em vez de mirar o horizonte pelo janelão, observei o varal pendurado na área contígua à cozinha. No contraluz do céu azulado, vi roupas que tremulavam levemente seguindo o ritmo suave de um fim de madrugada. Entre blusas, camisas e calças, reparei em algumas cuecas. Cuecas que não eram as minhas. Pela primeira vez em quatro anos, me deparei com cuecas de outro homem em casa.
Eu já havia dividido o título de homem da casa antes. Mas a parte que cabia a mim nesse status não era lá tão verdadeira. Era uma espécie de título de mentirinha. O dividi durante três décadas com meu pai, mas a casa não era minha. Minhas cuecas secavam junto às deles sem grandes traumas. Desde criança me acostumei a essa situação. Mas agora era diferente.
Depois que casei e passei a ser o único homem da casa, aí sim. Eu era o rei, o varão, o grande provedor. Até que...Até que vi outras cuecas em meu varal.
Bebi a água calmamente e coloquei o copo sobre a pia. Me aproximei do varal para observar detidamente aquelas três cuequinhas. Uma azul-escura, outra verde-escura e a terceira, branca. As três, minúsculas, de algodão, com o coz de elástico listrado. As duas primeiras tinham a marca Mash. A branquinha não tinha a grife tão visível. Pressionei o pregador e peguei a cueca clara em minhas mãos. Sim, eu tinha que observar os detalhes daquele objeto que, querendo ou não, simbolizava o fim de uma era, a era em que eu fui o único ser humano do sexo masculino nesses 90 metros quadrados que formam meu pequeno reino.
Tomei-a em minhas mãos e fiquei olhando cada detalhe. Havia uma inscrição, sim. A cuequinha é da marca Saga Kid's, cujo S de Saga faz uma espécie de curva e confere, assim, um ar de agilidade, de rapidez à marca. Estava lá na etiqueta: A peça foi feita pela ACR Confeções, o tamanho é P e a indústria é 100% brasileira. Olhei todos os detalhes, amigos. De tanto olhar, eu já estava involuntariamente decorando o CNPJ da tal da ACR. Aí achei que era demais e recoloquei a cuequinha de volta ao varal. Já passavam das 5h. Voltei a dormir.
Antes de pegar no sono, no entanto, me visualizei com meu filho jogando futebol na sala de casa. Pensei em como poderemos chutar a bola sem o risco de derrubar algum vaso, pensei nas desculpas que vamos inventar todas as vezes que as paredes apareceram manchadas. Fiquei imaginando se ele ele será melhor chutando ou defendendo. E se for melhor chutando, Artur será destro ou canhoto? Ainda não consegui identificar. Pensei ainda sobre carrinhos de controle remoto, video-games, trens e pipas. Ainda que seja uma brincadeira ultrapassada para muitos, certamente o ensinarei a fazer uma bela pipa colorida.
Por alguns minutos achei engraçado o rumo que meus pensamentos tomaram. Um simples e despretencioso copo d'água de madrugada, a visão de pequenas cuecas penduradas no varal e eis que minha mente se abre, ansiosa por inúmeras experiências que certamente viverei nos próximos meses, nos próximos anos.
Escrito por Saulo às 16h43
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Artur comemora o título do Leão
Escrito por Saulo às 21h04
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Passeio no shopping
Finalmente venci a preguiça e resolvi atualizar o blog. A última vez que escrevi aqui foi no Dia das Mães, o segundo domingo de maio. Já faz portanto um mês. Meu último comentário, chamado Sobre a Mãe de Artur, foi muito elogiado por todos que leram. O texto (logo aí abaixo) trata do nascimento de uma mãe, Patrícia. Ela gostou tanto que nem reclamou das vezes em que eu, eufórico com as vitórias do Sport na Copa do Brasil, chegava meio embriagado em casa. Se eu soubesse das propriedades libertadoras dos meus textos, teria enaltecido a mãe de Artur antes e mais vezes.
Nesses 30 dias, muita coisa aconteceu. Uma, no entanto, me chamou a atenção. Foi há uns 15 dias. Artur já havia completado quatro meses e decidimos levá-lo para passear no shopping. Até os três meses de vida, o bebê não deve ir a lugares fechados. Os médicos dizem que ainda são muito suscetíveis a contrair bactérias. Mas com Artur não havia risco. Ele já é um hominho.
Preparada toda a parafernália necessária às saídas com bebês, chegamos ao centro de compras. Eis que coloco o menino no carrinho e saio a empurrar todo orgulhoso. Ao meu lado, Patrícia tentava sorrateiramente assumir o comando do carrinho com leves empurrões no meu ombro, mas eu não deixei. Educadamente, deu um chega-pra-lá nela me mantive no controle do possante.
O mais legal é observar as reações das pessoas que vêm na direção contrária. A maioria das mulheres olhavam para Artur, faziam bico, diziam "ô, meu Deus" e sorriam. Podia ser adolescente, jovem ou uma mulher mais madura. Ele chamou a atenção de quase todas. E eu lá, peito estufado, sorriso no rosto, empurrando o carrinho e fazendo cara de "é o meu filhão". Não quis dizer a Patrícia, mas notei que algumas das mulheres olhavam para o papai de Artur também. Mas acho que eram olhares eram desprovidos de interesse. Sei lá, tem gente que gosta de ver se o fillho parece com o pai. Deve ter sido isso.
Escrito por Saulo às 20h58
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Menino bem tratado

Eis a prova da competência de Patrícia
Escrito por Saulo às 00h22
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SOBRE A MÃE DE ARTUR
Lembro-me como se tivesse sido hoje. Durante toda aquela quarta-feira, Patrícia havia me telefonado mais vezes do que o normal. Perguntava a que horas eu chegaria, se eu iria demorar, como eu estava, enfim, essas coisas. Atarefado no trabalho, não percebi nada de diferente.
Cheguei finalmente em casa por volta das 22h. Eu estava viajando nos últimos dois dias. Beijei minha mulher, perguntei como estavam as coisas e, enquanto eu bebia água na cozinha, ela, sorriso enigmático na face, me entregou um pequeno bilhete enrolado em forma de canudo.
Abri e li: "Lembra que eu te pedi um anel bem bonito pelos 3 anos de casados que fazemos no próximo mês? Vc disse que iria me dar..Lembra também que vc perguntou o que iria ganhar em troca? Pois bem, achei um presente bem, bem bonito, aliás, maravilhoso para vc: Vc vai ser papai!!!!!!Parabéns!!!!!"
Fiquei atônito. Minhas pernas logo ficaram bambas, meus lábios tremiam, a testa suava, o coração disparou. Abracei e beijei Patrícia enquanto ela me mostrava os exames e me presenteava com um anjinho em miniatura. Peguei uma garrafa de champagne, fui para a varanda e, com o celular no ouvido, comecei a dar a boa nova a todos. A felicidade era tanta que naquela noite eu não dormi. Era 22 de maio do ano passado.
Eis que se passaram 11 meses e vinte dias e Patrícia comemora hoje seu primeiro Dia das Mães como mãe. Mãe de Artur, nosso lindo filho que na próxima quarta-feira completa quatro meses de vida.
Eu sempre tive uma certa resistência a essas datas comerciais como Dia das Mães, dos Pais, da Criança, do Vovô, da Vovó etc. Mas vocês hão de convir que hoje é diferente. Pela primeira vez Patrícia será presenteada, será atriz principal e não mais coadjuvante, será a razão da celebração e não apenas parte dela. Agora, ela não faz parte apenas do time dos filhos. É também mãe. E que mãe, meus caros. E que mãe.
Costumo comentar que algumas poucas mulheres ficam mais bonitas após a maternidade. Elas chamam atenção porque desafiam a lógica natural das coisas. Patrícia é uma delas. Passou de bonita a linda. Seus olhos ficaram mais brilhantes e vívidos, sua pele mais macia. O corpo, esbelto como há um ano.
A grande transformação, no entanto, não foi física. Foi mental. Patrícia, como mãe, incorporou uma maturidade impressionante. Parou de se contrariar com coisas banais e concentra suas energias para o que verdadeiramente interessa: Artur. Até sua conhecida neurose por limpeza e arrumação diminuiu um pouco. Eu, naturalmente, achei ótimo porque posso comer no tapete da sala sem me preocupar em ser importunado.
Confesso que quando eu via Patrícia criando caso com bobagens, implicando por questiúnculas (adoro essa palavra) sem importância, se irritando com a demora do elevador, eu me perguntava se ela iria um dia ficar mais tranqüila, mais serena. E não é que aconteceu? O nascimento de Artur não modificou apenas nossas vidas. Modificou também o temperamento da mãe. Algumas pessoas diziam que isso poderia ocorrer. Agora eu vi na prática.
Patrícia revelou-se um mãe irrepreensível. Delicada, carinhosa, responsável e independente. Vez por outra, com o rabo do olho, fico observando-a cuidar do menino. Sua voz o acalma, seu cheiro o deixa feliz, sua imagem lhe traz felicidade. Enquanto admiro a mãe de Artur cantarolar a musiquinha "alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo..." lembro daquele dia na cozinha quando soube que iria ser pai. De lá para cá, não assisti somente ao nascimento do meu filho. Assisti também ao nascimento de um mãe.
PS - Meus parabéns, portanto, a Deinha, Nara, Carol, Renata, Fau, Gil, Bianca (Marina vem aí), Angela, Adriana, Carla, Fabiana, Rafaela, Ines, Maria, Leleca, Glória e, principalmente, a Osana (sem ela eu nada seria).
Escrito por Saulo às 00h07
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Atenção total

Artur adora ouvir histórias sem sentido
Escrito por Saulo às 00h49
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Dadaísmo, mamão e tolices
Agora que descobri que a crise financeira dos Estados Unidos tem o condão de fazer Artur dormir tranqüilamente, tudo ficou mais fácil. Sem o medo de fracassar nas minhas tentativas de niná-lo, sem a preocupação com uma eventual reclamação de Patrícia, posso fazer minhas pequenas experiências com o menino. Semana passada, por exemplo, cheguei a conclusão de que ele adora saber sobre as propriedades terapêuticas do mamão, da maçã e da aveia.
Não que eu saiba de tudo isso, mas, como ele não é muito exigente com a exatidão das informações, posso falar à vontade. Ele adora ouvir sobre o potencial medicinal dos alimentos. Enquanto explico, ele fica me olhando com ar de riso, encara o mamão com seriedade, olha para a maçã de soslaio (sempre quis usar esta palavra) e se entrete com a caixa colorida da aveia.
Aconteceu na última quarta-feira. Eu me acordei um pouco mais cedo e Artur já estava esperto, sorrindo para o mundo. Peguei o garoto em meus braços, fiz uma festinha, e logo depois o coloquei no possante, seu carrinho 2.0 rebaixado, como gosta de dizer Josinho, o irmão de Patrícia que é fanático por carros (e pelo Sport, claro).
Enquanto eu fazia uma rápida salada de frutas, Artur ficava me olhando. Patrícia tentava dormir um pouco e Rosita, quase sempre atrasada, ainda não tinha chegado. Fiquei conversando com Artur. Ele olhando para mim e eu lhe explicando sobre a acidez de algumas frutas, sobre gastrite, sobre HDL, sobre LDL, sobre triglicerídeos. Acho que ele gostou porque mostrou mais de uma vez a gengiva banguela. Quando eu não sabia mais o que falar tentei ficar calado. Mas aí ele choramingou. Fiquei preocupado. Se Patrícia acordasse iria passar na minha cara que eu não consigo ficar nem dez minutos com Artur sem que ele chore. Foi aí que comecei a improvisar.
Lembrei de Laurindo, um amigo do trabalho que havia me falado sobre sua técnica para manter a atenção de seus filhos. Quando está contando histórias às crianças, Laurindo não recorre a roteiros já conhecidos. Ele cria as próprias histórias. Aliás, não só cria como as interpreta também. O ineditismo das tramas associado à teatralidade que Laurindo lança mão na hora das narrações deixa, segundo ele, Maria Clara e José hipnotizados.
Jarbas Junior, outro amigo do trabalho, também me falou algo mais ou menos parecido. Partindo de uma premissa já conhecida, ele aperfeiçoa o roteiro de maneira que possa deixá-lo ainda mais interessante. Assim, todos os dias Jarbas inventa um desfecho diferente para Os Três Porquinhos. Não sei como ele consegue a proeza, mas me garantiu que Pedro, seu filho de 6 anos, já conhece dezenas de tipos de madeira, de palha e de tijolo, os materiais usados na construção das casas de Heitor, Prático e o do outro porco cujo nome eu não lembro.
Inspirado nas experiências de Laurindo e Jarbas Jr, comecei a falar coisas sem nexo naquela manhã de quarta-feira, na cozinha de casa.
Sem ter mais o que dizer e sabendo que ele queria continuar ouvindo, olhei para Artur e disse algo assim: - A aveia é boa, meu filho, porque pode fazer o sol nascer sem grandes turbulências no dia-a-dia do coelho que reclama do barulho na rua que fica perto da praia. Artur sorriu. Continuei: o mamão, quando está maduro, parece o violão que sempre acorda o pássaro morador da esquina de Copenhague com peixe frito. Artur gargalhou. Também achei graça. Ficamos os dois sorrindo na cozinha. Enquanto eu pensava que tem gente que ganha dinheiro com poesia dadaísta e outras coisas nonsenses, ele ficava aguardando a próxima bobagem.
Ah, a paternidade...como é bom ter uma justificativa para nossas tolices.
Escrito por Saulo às 00h32
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